terça-feira, 6 de setembro de 2016

Respeito


Respeito cada lágrima minha ou de quem quer que seja
Porque cada lágrima é uma verdade do coração
Seja na alegria ou no horror
Quando alguém chora diz ao amor ou a dor
Estou aqui vivo vida sentindo cada emoção



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Acordei

Acordei de um sono antigo, longíquo

Como a bela adormecida na sua tumba enevoada de esquecimento dormi um sono pesado, conservado numa lembrança inquietante, numa imobilidade maldita

Acordei...

Mesmo assim o tempo não parou e a vida que sempre foi minha não aconteceu

Retornando ao rio correntoso da vida, despertei em movimento, olhei para trás, lembrei de vultos, de uma vida sob um encanto de sonho fora de esquadro

Acordei...

Tudo tem consequência

Dormi.

Dormi tempo demais?

Todavia a vida é minha

Despertei distante da margem segura das escolhas com rumo

Num lugar qualquer, numa paisagem...retalhado por medos, paixões, fantasias, ilusões

Contudo, o que me acordou me mostrou um rosto conhecido.

Era meu rosto!
Refletido num espelho, me vi num átimo de segundo

Gritei.

Dancei aos sete ventos, nos sete lados em sete movimentos.

Agora dia e noite percorro o caminho de volta para casa.



Escrita em 31/05/2015


domingo, 11 de maio de 2014

Mãe


Para minha amada Carla que é mãe


Mãe, mãe se tornando mãe
A cada dia a cada momento

Mãe, mãe já mãe há muito tempo
Porque em todos os tempos do mundo
O cuidado, a nutrição são forças da natureza

Mãe, mãe agora mãe
Pois não tem hora
A cada choro, a cada fome, a cada colo, na madrugada
Em cada atenção aconchego quente

Doação inerente
Sem escolha, sem razão
Com o instinto potente

Mãe, mãe de outrora
Mãe, mãe gerando a vida, doando leite
Alimentando, protegendo, amando

Mãe, mãe nascendo
Cria se desenvolvendo no teu abraço
No teu sorriso, na tua fala, no teu alento

Mãe, mãe mulher se transformando, se abrindo, se quebrando, se agitando, se contorcendo

Mãe, mãe dançando, pulando, brincando, correndo

Venerando sua prole, sendo o esteio, celeiro vital

De amor, de paz e alimento




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Centro Irradiador

Algumas palavras são como carinho, outras são verdades, fatos, devoluções, outras ainda desejos, vontades e tem aquelas que são pura intuição, claríssima abertura para pensamentos inesperados. É possível perceber quando algo nunca sentido vem ao coração. Em meios ditos “espirituais” cultivam a palavra transformação, a dizem aos quatro ventos.

Para mim parece enganação das boas, noventa e nove por cento desses discursos, não pelos conceitos, idéias e direções dos mestres, mas porque me parece mesmo que o terreno fértil e sincero para essa condição se dar está apenas no indivíduo, num centro único na pessoa, que não pergunta a ninguém que caminho tomar, que é capaz de algum momento da existência tomar totalmente para si o pulso da suas alegrias, de seus serviços, da consciência aonde precisa crescer e o que precisa curar.

A partir dai fazer algo no mundo, com o mundo, com as pessoas torna-se um grande cenário, espelho, elenco para isso. Uso os aparelhos do teatro como analogia, pois sinto de verdade a vida é como um grande drama ou comédia para ser vivido, encenado. Os dois.

Entendi à muito tempo a trás que não existe impulso transformador sem uma autonomia de um centro irradiador dentro da pessoa, que o mínimo sentido de triangulação com qualquer pessoa, coisa ou conceitos,ou seja ter de olhar para o lado, para um outro para corroborar suas percepções, para decidir onde empreender suas escolhas é sinal de que o núcleo ainda não se formou.

Sem esse núcleo nada prospera completamente. E plenitude tem tudo haver com uma espécie de programa que cada alma guarda para o indivíduo, em cumprir um tipo de senda que leva ao novo, a realizar vivencias que cada vez mais aproximam de uma sensação de completude, de amor por tudo. São as escolhas feitas do ponto único de cada ser, que não precisam contar com ninguém, no sentido dos motivos, para serem realizadas, que realmente devolvem ao ser quem ele é de fato.

Sim, contaremos sempre com uma rede de colaboração, mas não com vinculações que geram dependência ou mesmo subordinação. Sim, não eliminaremos sistemas de organização com lideranças a seguir, mas não seremos mais coadjuvantes de nenhum processo pessoal de desenvolvimento, pois os motivos sempre serão profundamente enraizados num centro irradiador próprio.

E novamente, vejo nessas escolhas, o cenário do mundo, e mundo com suas inúmeras necessidades, como campo de oportunidades e temas para a atuação dessa alma no individuo. Não importa o que se escolha, mas que se escolha de um centro irradiador, daquele ponto mencionado antes, deste núcleo que não tem concessões e contratos com ninguém, com nada, que brilha por si só.

Sabemos de verdade quando fazemos escolhas deste ponto. Isso não é comum, isso é firme, isso é sem dúvida. É preciso acreditar no que vem deste ponto.

Para isso, talvez, acontecer o individuo necessite desmontar uma “tenda”, montada á muito tempo, com diversas bases plantadas em tudo que desvia o olhar para uma segunda coisa, que não é seu desejo pleno. É sempre mais fácil pegar carona, mas não é pleno isso.

Escolher como uma flecha é o único caminho para o ser se sentir completo, e mundo inteiro está ai para sairmos de dentro de nós e servi-lo. Claro que esse sol irradiador na pessoa precisa nascer, precisa ser sentido, precisa brilhar no coração de uma pessoa.

Como se faz isso?

Não é exatamente como, mas o que deve ser feito.

A pessoa deve gerar energia, mover tudo dentro de si, mas principalmente desmontar a tenda. Ser um consigo mesmo, fazer as mínimas escolhas a partir de luz própria.

Essa luz é o único quesito, e se não a sentimos, e é fato de que não a sentimos no geral da vida, precisamos nos devotar a idéia dela, praticar sinceramente ações que nos aproximem disso cada vez mais. Ligar o nosso cabo de alimentação a fonte correta. Essa fonte não está em ninguém, essa fonte é naquilo que é único em cada ser, aquilo que é mais que o ser pequeno da pessoa, mas que é inominável e incapiturável em cada um de nós.  Aquilo que é mais do que tudo, uma certeza de unidade. Uma idéia de Deus em cada um, um clareza de que somos luz e tudo o mais é um teatro, que hora é muito bom e hora é ruim.

E bem verdade é também que nos damos ao luxo de definhar, de se esvair ou de levar a vida com a barriga, operando num menos, operando na carona quase todo o tempo.

Claro, que pegamos carona o tempo todo, mas se não decidimos, a partir desse centro irradiador, onde precisamos chegar, as coronas são inúteis e pouco frutíferas. Vamos indo por ai, e estar à deriva significa mesmo se tornar presa fácil de uma porção frustrações inúteis.

Ganhar o próprio carro é um mérito conquistado.

O bom é que a dor é o sinal, a alma tem esses mecanismos ao seu dispor. O individuo ou se anestesia, e toca a vida semi-vivo, ou passa a viver com dor, e quando ela é intensa podemos nos atentar para tudo que mora em nosso coração que está ainda desalinhado com o compromisso de plenitude. Dor da alma, que muitas vezes vira física.

Não, não há como se confundir, a dor não tem nada haver com uma ansiedade juvenil, com questionamentos inseguros e suposições, ela move o ser a desmontar a tenda. A ansiedade é pueril, não toca a nada que seja importante, e seu papel é desviante, ludibria o ser a não perceber o que precisa em relação a sua existência, ao seu programa do novo.  

Viemos à vida sem dúvida para realmente trilhar as estradas as quais não botamos os pés ainda, do contrário não precisaríamos mais voltar.

O preconceito, os julgamentos são um veneno, é preciso ouvir os impulsos puros, e pré-idéias a respeito, disso ou daquilo, obliteram o ser. É preciso pegar nas mãos os caminhos que o novo nos oferece, pois ali há direções, indicações frescas para onde ir, o que fazer. A cada passo uma vitória, a cada escolha a partir do centro único uma felicidade intima. Assim a estrada se faz e o passo a passo vai se tornando veloz, e dessa rapidez uma pista de decolagem se monta e o ser de rápido passa a voar, voar e voar. Precisamos dar os primeiros passos.

É preciso não poupar esforços nessa direção.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Acalma-te

Acalma-te coração valente deixa entrar nele uma brisa leve  um vento breve  uma nuvem fofa  uma alegria sem compromisso  Acalma-te coração valente a afaga-te no colo de uma dona carinhosa e cheia de calor repleta de amor Acalma-te coração valente e saboreia um sorvete de creme no banco de uma praça ensolarada numa tarde de sábado  escuta a tua voz mais doce e olha nos olhos dela  Acalma-te coração valente e chora num peito amigo torna o teu suspiro uma longa respiração fluente convida toda a vida para nascer e ser um pequenino bebê vivo e delicado  Acalma-te coração valente descansa a tua espada de batalha teu cavalo de corridas e dorme no cuidado no ninho aconchegante da compaixão seja grande e também pequenino Acalma-te coração valente e descobre-te do manto que te esconde das fugas e mostra-te por inteiro pega a tua desconfiança e converse com ela uma prosa amiga e escuta a voz trêmula de suas queixas Acalma-te coração valente senta-te no silêncio da solidão e observa teu tempo tua vontade teu movimento despreza coisas de barulhos e gritos, deixa para trás parafernálias e desistências, segue mesmo torto mesmo errando segue errante caminhando e às vezes correndo,       mas      sempre     em frente  sempre  querendo-se  bem desejando o bem        Acalma-te coração valente e percebe que entregar-se é uma arte do silêncio é um movimento nada motor pintar todas a telas da vida com mãos de escultor que vê na pedra bruta a forma,o peso, o cheiro e a cor Acalma-te coração valente que o som no silêncio és tu.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A vida é foda !


Um dia eu tive um sonho

Sonhei que estava deitado na cauda do dragão do tempo e fiz uma viagem anárquica
Acabei numa sala repleta de espelhos
Olhei-me num deles e vi meu coração, meu cérebro e meu umbigo numa forma de homem do avesso
Senti algo perto de um total desespero!

Pensei

Que diabo é isso meu Deus? Estou transverso!

E nisso uma saraivada de memórias arrebentaram meu corpo em mil e uma vozes, em 250.000 mil caretas, e em um milhão de relacionamentos

Vi enganos, possessões, medos
Certezas, alegrias, amor, dúvidas, falas e falas e mais falas, desejos
Forças, amizades, toques, beijos, beijos e mais beijos
Calças, costuras, dores, comidas, ecos, congestionamentos
Repostas, repostas, repostas, parafusos, cobertas, inconscientes adestramentos

Esquecimentos me julgaram
Julgamentos me constrangeram

Cartas eu lancei a sorte

E vi que nada está ao léu
Cada feito está dito no meu intento

Ouvi um retumbante estampido

E apareceu-me um velho tocando-me a cabeça e me dizendo:

Seja como for o que você sabe você sabe, mesmo fingindo esquecê-lo!

Acorde em vida, desengate o freio!


Acordei

E pensei

A vida é foda!

No fim fenece sem nos deixar nada
Nem a veste corpo perecível ao tempo
Fazendo-nos acreditar na morte

A vida é foda!

Porque tem uma aqui dentro, uma que é ai fora e uma outra que é um circuito problema que mistura aqui dentro com ai fora!

Isso é doído!

Quantas vezes a gente não se vê sentindo uma coisa, pensando outra e falando uma outra coisa ainda

Sentindo-se uma bosta, pensando que um dia tudo vai ser diferente e falando para quem quer que seja: eu sei o que estou fazendo!
Firmeza! Firmeza!

Doutras vezes vem acontecimentos sem espera, sem eira e nem beira
Sem o menor propósito nos colocam em pura calamidade

(Essa uma amiga me contou) 

Você atrasado para um compromisso muito importante e o pneu do seu carro fura, ai quando você vai ver o macaco está com problema, demora muito para você torcer os parafusos, passa uma pessoa e ri da sua cara, você vê no relógio e está muito atrasado, quando finalmente você vai trocar o pneu, o estepe está murcho, você senta na calçada e chora, depois você corre até o posto, corre pelas ruas empurrando um pneu, mais alguns riem da sua cara, você chega no posto te confundem com um borracheiro, você está ensopado de suor e graxa, troca o pneu, vai ao borracheiro, compra o um macaco novo e naquela noite entram no seu carro, um ladrão de macacos rouba o seu carro e todos outros do quarteirão inteiro!

Outro dia um suíço piloto de moto velocidade, venceu uma corrida e na volta da vitória bate num retardatário concorrente e na gravidade do acidente morre ali mesmo. Era sua primeira vitória!

Vai dizer?
A vida é foda!

Nem mais, nem menos, uma matemática incógnita
Às vezes reles como um percevejo
Outras, incrível, mágica e felizmente surpreendente

Outro dia conheci, numa ação servidora com um grupo de amigos, um morador de rua, o Seu Paulo, talvez 65 anos, ocupando uma praça na Vila Pompéia
Um homem sem casa, sem alegrias e fechado em sua vida constrangedora, por não ter o seu teto, por não se sentir diferente de um bueiro

Aparentemente ele precisava da gente, e em plena ação social, numa cantoria Nelson Gonçalviana nossa para ele
O homem comovido pede o violão e o pegando na mão
Dedilha uma baixaria chorona tocando a mesma música
Ela nos devolvendo
Arrebentando o coreto!

Nos deixando no chinelo
Nos comovendo para cachorro!

Nós é que precisávamos dele!
Para redimir nossas pequenas impressões acerca do que é ser ou não ser      

A vida é foda!

Tento acercá-la de um sentido
Encontrar-lhe o jeito
Entende-la

O que de fato percebo é que ela acontece numa sucessão maior que o tempo e o espaço
Ela é um monstro comovente
Que nos pede o corpo presente

Para poder vê-la em sua riqueza
Para poder abraçar-lhe inteira

Criar nossos livros de histórias
Cujas personagens e enredos são nossas vidas inteiras   

Essa poesia é dedicada a Seu Paulo e Dona Maria



domingo, 5 de dezembro de 2010

Grandeza de Areia


Escrita em 2003

Meu Castelo de Areia desabou
Passou um vento forte e o levou
Desfez tudo, num sopro: a dor

Dentro do castelo um homem corria em círculo atrás do próprio rabo. 
Na sala redonda, escura, sem janelas a luz de um lampião. 
Correndo, correndo, nada encontrando.
Correndo, correndo, nada se movendo.
Castelo feito de sonhos de grandeza, material ilusório, tijolos de areia.
Nada à volta, nada no tempo!
Parado sempre correndo. 
Correndo fugindo, correndo morrendo, correndo caindo. 
Voando sem solo, quase sem ar, nada dizendo.
Criando sentimentos, vinho, e pó. 
Embriagando-se de pontos de vista, respostas constantes. 
Criando paredes imensas da grandeza de areia.

Ah! Grandeza de Areia!
Como eras imensa, farta e bela!
Inteligente, sedenta de grandes esferas, serena na sua paralisia esbelta!
Correndo no teu campeonato
Fui ser o melhor corredor, o maior ator
Devotei-me a ti
Correndo até o mar, correndo para poder te amar
Fiz o que querias
Amando sem fim, a grandeza sem mim

A corrida sendo o meu sustento, da minha vida tudo levou
Fôlego, dinheiro, amor, toda a cor
Fiquei além da terra, além do tempo
Moldando as entregas, movendo-me sem movimento

Finalmente o estandarte da morte soou, sua fatídica melodia. 
Estrondo no tempo, terremoto no espaço, um vendaval pestilento. 
Desfez o castelo de sonhos de grandeza de um menino piolhento.

A corrida acabou!

Triste sofrimento, impossível a fala, o eco de qualquer pensamento. 
Salvar este agora sem casa, sem teto, só, com seu antigo costume: o frenético movimento.
Só, e agora mais um. 
No meio de tudo, no meio do nada, num deserto, num Saara. 
Na selva de pedra, procurando por água.

Dentro do pequeno e antigo castelo o pseudo-poder corrompia todo o seu ser.
A corrida corria em torno de si mesma. 

Mesmo que parecesse rápida, era abafada, lenta e parada. 
Mesmo os mais recônditos lugares do espírito atrelados aos incisivos tentáculos do controle.
Mesmo a verdade dos sábios turvada por uma névoa poeirenta. 
Mesmo em movimento nada se movia.

Dançar a dança do castelo é compor uma sorte com riso de morte, com cheiro de estrume, com presságios sem sorte.

Foi o que aconteceu!

Num show ao vivo, uma queda elegante, uma fratura exposta, para engessar-se de morte.
Antes da queda, na casa redonda, no círculo distinto, presenças entravam e saiam.
Ninguém ficava, pois nada parava a corrida! 
Quem logo via não suportava a agonia e saia. 
Brigada, mal amada ou expulsa.

De tudo valia!Para manter a febre daquela histeria.

Mas o castelo caiu.
O homem se viu.
Tudo veio.
Estrume, sal e pó.
Secura e uma voz com entorse. 
Um terremoto quebrando o escroque.
Torcendo tudo bem no meio. 
Acabando com aquele festival agourento, com aquela corrida sem sorte.