quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O medo


(1998)

O medo seu não é o medo meu
Sabendo o começo e o fim de tudo poderia ficar tranqüilo
O medo seu lembra o medo meu
O medo meu aumenta o medo seu
O medo causa dor
O medo meu me estraçalha o coração
O medo seu lembra o medo meu
O medo meu é besta e me consome
Fogo ardendo dentro de mim
Boca aberta mastigando tudo, escarrando meu coração partido.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O homem enlatado


O homem enlatado resolveu parar de correr
Mesmo que a muito tempo apenas fizesse isso
- O que?
Correr, correr e correr em busca de tudo que lhe era apresentado sempre num horizonte
Próximo a sua vista, porém longe de seu alcance, resolveu por motivo misterioso parar um pouco
- Resolveu parar porque?
Porque percebeu que havia esquecido de tudo
Havia deixado para trás, não se sabe muito bem onde, a memória de tudo
Como num sonambulismo inibriante vagou tanto tempo sem olhar para si que se esqueceu completamente como havia se tornado uma “sardinha”...

( aguarde cenas dos próximos capítulos)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Nosso fim, Outro fim, Fim

Nós por razões distintas nascemos
Nós para o nós morremos
Sentimentos revelados visíveis
Cada mundo tornou-se presente
Fazendo um chão para outros novos rumos
Cada centro fechou-se para o medo
Chegamos perto e num dado momento deu queima
Nós cada um eu
Existimos agora um para o outro na lembrança


Eu por minhas razões nasci para mim
Ela pelas delas morreu para nós
Eu por meus sentimentos me revelo
Ela pelos seus tornou-se visível
Eu para meu mundo tornei-me presente
Ela por seu chão seguio para outros novos rumos
Eu por centrar-me fechei-me para o medo
Ela por chegar perto se queima
Eu por mim
Ela existe agora na lembrança
Ela de mim desenlaça-se

Ela por suas razões morre para mim
Eu pelas minhas vivia para ela
Ela por seus sentimentos se esconde
Eu pelos meus deixo-a invisível
Ela por seu mundo torna-se uma estrangeira
Eu por meu chão sigo para outros novos rumos
Ela por centrar-se fecha-se no medo
Eu por chegar perto me queimo
Ela por ela, eu não existo
Eu por mim desenlaço-me agora mesmo dela


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sonhei

Sonhei um sonho sabido que me levou sorrateiro por becos vazios
Alamedas sem cor de minha vida passada mendiga
Sai do breu acompanhado de um pássaro que levou-me voando até o espaço
De lá cantei um mundo inteiro e fiz a terra girar ligeiro
O tempo correu, a morte não veio, cortei pelas estepes e cai em meu reino
Sentado em trono de vento cantei aos quatro lados a música dos tempos
Sorte de mim que não sou mais estrangeiro ou perdido passageiro
Agora minha sina não mais vaga por escassez ou medo
Construo uma nave para viajar pelos momentos, pelas caras, por sujeitos
Dançarei nas sinuosas, nas retas, nos pulos, nos desvios com o peito aberto
Num tubo de luz, com uma vida disposta, com a carne do tato a mostra

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Resposta

Ela respondeu-me pouco num silêncio vitílico
Ela pareceu-me robótica numa paralisia contida
Ela nada ressoou com minha noitícia de encontro
Ela longe deu-me as costas com motivos concretos
Ela ainda mora em algum lugar de minha vida poesia 

A noite

As luzes brilham dentro das casas
Do lado de fora vendo-as permito-me sonhar

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Verdade

É como se conta...

Vi o pai correndo entre as mulheres cantando feito um maluco, rindo, amando, tocando as tetas delas
Vi o filho mais velho observando tudo isso e dando muita risada
Vi o pai fazendo uma casa numa montanha e dela se via o sol nascendo, as árvores crescendo
Vi o filho do meio tranqüiilo, porque podia morar nela
Vi o pai festejando, bebendo umas bebidas de música e palhaçadas
Vi o filho mais novo alviado dando uns rodopios festivos
Gritava, pai ! pai! pai ! Que maravilha !

Todos estes homens: o pai, os filhos com seus sonhos foram jogar bola

Ai, vi ! De estrelas, em estrelas, nas constelações os caminhos da pelota em jogo

Chuta! Na mesma pai, na mesma ! Passa, passa !

Vi o pai comendo uma comida quente e deliciosa e com a boca cheia falando belezas
Vi o filho mais velho matando a fome de uma vida inteira
Vi o pai dedilhando as cordas de um violão feito uma ave de rapina, atacando os acordes feito um raio
Vi o filho do meio certo de que sabia de si mais do que ninguém
Vi o pai no chão da sala dormindo feito um anjo, quase que ele tinha pouca idade
Vi o filho mais novo contemplativo, na suavidade do cuidado sereno

Pai ! Só mais essa ! Toma mais esse trago, e respeita o tempo
Não te preocupa, ou sequer tenhas medo
Nós estamos te vendo.