quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Acalma-te

Acalma-te coração valente deixa entrar nele uma brisa leve  um vento breve  uma nuvem fofa  uma alegria sem compromisso  Acalma-te coração valente a afaga-te no colo de uma dona carinhosa e cheia de calor repleta de amor Acalma-te coração valente e saboreia um sorvete de creme no banco de uma praça ensolarada numa tarde de sábado  escuta a tua voz mais doce e olha nos olhos dela  Acalma-te coração valente e chora num peito amigo torna o teu suspiro uma longa respiração fluente convida toda a vida para nascer e ser um pequenino bebê vivo e delicado  Acalma-te coração valente descansa a tua espada de batalha teu cavalo de corridas e dorme no cuidado no ninho aconchegante da compaixão seja grande e também pequenino Acalma-te coração valente e descobre-te do manto que te esconde das fugas e mostra-te por inteiro pega a tua desconfiança e converse com ela uma prosa amiga e escuta a voz trêmula de suas queixas Acalma-te coração valente senta-te no silêncio da solidão e observa teu tempo tua vontade teu movimento despreza coisas de barulhos e gritos, deixa para trás parafernálias e desistências, segue mesmo torto mesmo errando segue errante caminhando e às vezes correndo,       mas      sempre     em frente  sempre  querendo-se  bem desejando o bem        Acalma-te coração valente e percebe que entregar-se é uma arte do silêncio é um movimento nada motor pintar todas a telas da vida com mãos de escultor que vê na pedra bruta a forma,o peso, o cheiro e a cor Acalma-te coração valente que o som no silêncio és tu.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A vida é foda !


Um dia eu tive um sonho

Sonhei que estava deitado na cauda do dragão do tempo e fiz uma viagem anárquica
Acabei numa sala repleta de espelhos
Olhei-me num deles e vi meu coração, meu cérebro e meu umbigo numa forma de homem do avesso
Senti algo perto de um total desespero!

Pensei

Que diabo é isso meu Deus? Estou transverso!

E nisso uma saraivada de memórias arrebentaram meu corpo em mil e uma vozes, em 250.000 mil caretas, e em um milhão de relacionamentos

Vi enganos, possessões, medos
Certezas, alegrias, amor, dúvidas, falas e falas e mais falas, desejos
Forças, amizades, toques, beijos, beijos e mais beijos
Calças, costuras, dores, comidas, ecos, congestionamentos
Repostas, repostas, repostas, parafusos, cobertas, inconscientes adestramentos

Esquecimentos me julgaram
Julgamentos me constrangeram

Cartas eu lancei a sorte

E vi que nada está ao léu
Cada feito está dito no meu intento

Ouvi um retumbante estampido

E apareceu-me um velho tocando-me a cabeça e me dizendo:

Seja como for o que você sabe você sabe, mesmo fingindo esquecê-lo!

Acorde em vida, desengate o freio!


Acordei

E pensei

A vida é foda!

No fim fenece sem nos deixar nada
Nem a veste corpo perecível ao tempo
Fazendo-nos acreditar na morte

A vida é foda!

Porque tem uma aqui dentro, uma que é ai fora e uma outra que é um circuito problema que mistura aqui dentro com ai fora!

Isso é doído!

Quantas vezes a gente não se vê sentindo uma coisa, pensando outra e falando uma outra coisa ainda

Sentindo-se uma bosta, pensando que um dia tudo vai ser diferente e falando para quem quer que seja: eu sei o que estou fazendo!
Firmeza! Firmeza!

Doutras vezes vem acontecimentos sem espera, sem eira e nem beira
Sem o menor propósito nos colocam em pura calamidade

(Essa uma amiga me contou) 

Você atrasado para um compromisso muito importante e o pneu do seu carro fura, ai quando você vai ver o macaco está com problema, demora muito para você torcer os parafusos, passa uma pessoa e ri da sua cara, você vê no relógio e está muito atrasado, quando finalmente você vai trocar o pneu, o estepe está murcho, você senta na calçada e chora, depois você corre até o posto, corre pelas ruas empurrando um pneu, mais alguns riem da sua cara, você chega no posto te confundem com um borracheiro, você está ensopado de suor e graxa, troca o pneu, vai ao borracheiro, compra o um macaco novo e naquela noite entram no seu carro, um ladrão de macacos rouba o seu carro e todos outros do quarteirão inteiro!

Outro dia um suíço piloto de moto velocidade, venceu uma corrida e na volta da vitória bate num retardatário concorrente e na gravidade do acidente morre ali mesmo. Era sua primeira vitória!

Vai dizer?
A vida é foda!

Nem mais, nem menos, uma matemática incógnita
Às vezes reles como um percevejo
Outras, incrível, mágica e felizmente surpreendente

Outro dia conheci, numa ação servidora com um grupo de amigos, um morador de rua, o Seu Paulo, talvez 65 anos, ocupando uma praça na Vila Pompéia
Um homem sem casa, sem alegrias e fechado em sua vida constrangedora, por não ter o seu teto, por não se sentir diferente de um bueiro

Aparentemente ele precisava da gente, e em plena ação social, numa cantoria Nelson Gonçalviana nossa para ele
O homem comovido pede o violão e o pegando na mão
Dedilha uma baixaria chorona tocando a mesma música
Ela nos devolvendo
Arrebentando o coreto!

Nos deixando no chinelo
Nos comovendo para cachorro!

Nós é que precisávamos dele!
Para redimir nossas pequenas impressões acerca do que é ser ou não ser      

A vida é foda!

Tento acercá-la de um sentido
Encontrar-lhe o jeito
Entende-la

O que de fato percebo é que ela acontece numa sucessão maior que o tempo e o espaço
Ela é um monstro comovente
Que nos pede o corpo presente

Para poder vê-la em sua riqueza
Para poder abraçar-lhe inteira

Criar nossos livros de histórias
Cujas personagens e enredos são nossas vidas inteiras   

Essa poesia é dedicada a Seu Paulo e Dona Maria



domingo, 5 de dezembro de 2010

Grandeza de Areia


Escrita em 2003

Meu Castelo de Areia desabou
Passou um vento forte e o levou
Desfez tudo, num sopro: a dor

Dentro do castelo um homem corria em círculo atrás do próprio rabo. 
Na sala redonda, escura, sem janelas a luz de um lampião. 
Correndo, correndo, nada encontrando.
Correndo, correndo, nada se movendo.
Castelo feito de sonhos de grandeza, material ilusório, tijolos de areia.
Nada à volta, nada no tempo!
Parado sempre correndo. 
Correndo fugindo, correndo morrendo, correndo caindo. 
Voando sem solo, quase sem ar, nada dizendo.
Criando sentimentos, vinho, e pó. 
Embriagando-se de pontos de vista, respostas constantes. 
Criando paredes imensas da grandeza de areia.

Ah! Grandeza de Areia!
Como eras imensa, farta e bela!
Inteligente, sedenta de grandes esferas, serena na sua paralisia esbelta!
Correndo no teu campeonato
Fui ser o melhor corredor, o maior ator
Devotei-me a ti
Correndo até o mar, correndo para poder te amar
Fiz o que querias
Amando sem fim, a grandeza sem mim

A corrida sendo o meu sustento, da minha vida tudo levou
Fôlego, dinheiro, amor, toda a cor
Fiquei além da terra, além do tempo
Moldando as entregas, movendo-me sem movimento

Finalmente o estandarte da morte soou, sua fatídica melodia. 
Estrondo no tempo, terremoto no espaço, um vendaval pestilento. 
Desfez o castelo de sonhos de grandeza de um menino piolhento.

A corrida acabou!

Triste sofrimento, impossível a fala, o eco de qualquer pensamento. 
Salvar este agora sem casa, sem teto, só, com seu antigo costume: o frenético movimento.
Só, e agora mais um. 
No meio de tudo, no meio do nada, num deserto, num Saara. 
Na selva de pedra, procurando por água.

Dentro do pequeno e antigo castelo o pseudo-poder corrompia todo o seu ser.
A corrida corria em torno de si mesma. 

Mesmo que parecesse rápida, era abafada, lenta e parada. 
Mesmo os mais recônditos lugares do espírito atrelados aos incisivos tentáculos do controle.
Mesmo a verdade dos sábios turvada por uma névoa poeirenta. 
Mesmo em movimento nada se movia.

Dançar a dança do castelo é compor uma sorte com riso de morte, com cheiro de estrume, com presságios sem sorte.

Foi o que aconteceu!

Num show ao vivo, uma queda elegante, uma fratura exposta, para engessar-se de morte.
Antes da queda, na casa redonda, no círculo distinto, presenças entravam e saiam.
Ninguém ficava, pois nada parava a corrida! 
Quem logo via não suportava a agonia e saia. 
Brigada, mal amada ou expulsa.

De tudo valia!Para manter a febre daquela histeria.

Mas o castelo caiu.
O homem se viu.
Tudo veio.
Estrume, sal e pó.
Secura e uma voz com entorse. 
Um terremoto quebrando o escroque.
Torcendo tudo bem no meio. 
Acabando com aquele festival agourento, com aquela corrida sem sorte.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Slav

É como se conta...

Slav é muito poderoso
Sonha e tudo o que vê acontece

Slav é baixo, tem belos cabelos pretos
Slav vem de uma terra estranha
Slav veio até aqui descobrir mundos novos para seus olhos castanhos

Slav vê o mundo de um outro homem renascendo
Enxerga uma motocicleta correndo e o homem dirigindo-a com seu rosto ao vento
Com sua alma plena, com alegria de dentes 

Slav vê o mundo desse homem abrindo-se em brechas de profundos respiros
Enxerga uma pequena banda tocando musicas circenses e o homem tocando sua sanfona, violão e cantando seus sonetos
Com a alma brilhante, pulando feito criança

Slav vê o mundo do felizardo homem se construíndo em sólidos desejos 
Enxerga uma casa espaçosa brotando do chão e lhe dando seio, dado-lhe cama, lençois, travesseiro, comida, sala, mesa, móveis, reatratos, quadros, cortinas, eletrodomésticos, cachorro, sossego
Com a alma descansada o homem cuida de seu espaço com todo zelo

Slav vê no mundo dele o seu amor chegando-se e abraçando-o num saboroso aconchego
Enxerga uma linda e sincera mulher amando-o e dando a luz a duas estrelas meninas para sua felicidade de pai ser inteira
Com a alma explodindo o homem cuidará das três com todo seu amor, todo seu empenho

Slav é assim e seguira vendo o que precisa ser visto para que a vida do homem ascenda
Slav voltará em breve, logo, logo mais, logo mais cedo





 

Mãe Maravilha

Para Otilia, minha mãe.

Melhor impossível uma Otilia Maria
Mãe Maravilha !
Minha e de meus irmãos

Maria dos Santos
Otilia !

Nossa Mãe
Amiga de todos eles...

Os mestres, os anjos, arcanjos, luzes, sóis, pássaros dourados de toda boa sorte,totens de poder e libertação

Otilia dos Santos

Mãe, amiga, curandeira, irmã, filha

Mulher lutadora
Mulher Maravilha
Pessoa iluminada, de si vencedora

Melhor impossível, uma Otilia Maria dos Santos
Nas nossas vidas nos oferecendo redenção em horas de dor
Presentes nas horas felizes

Otilia Maria feliz por tempo e horas de todos os dias

Forte amorosa incodicionalmente

Há tantos dias te conheço Otilia, a mais ou menos 12.410.00 dias

O coração de filho, o coração de nós filhos
Na tua casa de amor
Defende-se
Conforta-se
Desdobra-se
Ergue-se

Corre, ama e canta

Mãe Maria Maravilha

Otilia !

Neste dia de teu festejo

Desejo, desejamos-te

Todo o amor
Que tu nos dá de bandeja

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O medo


(1998)

O medo seu não é o medo meu
Sabendo o começo e o fim de tudo poderia ficar tranqüilo
O medo seu lembra o medo meu
O medo meu aumenta o medo seu
O medo causa dor
O medo meu me estraçalha o coração
O medo seu lembra o medo meu
O medo meu é besta e me consome
Fogo ardendo dentro de mim
Boca aberta mastigando tudo, escarrando meu coração partido.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O homem enlatado


O homem enlatado resolveu parar de correr
Mesmo que a muito tempo apenas fizesse isso
- O que?
Correr, correr e correr em busca de tudo que lhe era apresentado sempre num horizonte
Próximo a sua vista, porém longe de seu alcance, resolveu por motivo misterioso parar um pouco
- Resolveu parar porque?
Porque percebeu que havia esquecido de tudo
Havia deixado para trás, não se sabe muito bem onde, a memória de tudo
Como num sonambulismo inibriante vagou tanto tempo sem olhar para si que se esqueceu completamente como havia se tornado uma “sardinha”...

( aguarde cenas dos próximos capítulos)